MARCOS
Autor Marcos
Papias, bispo de Hierápolis, fez a seguinte observação, por volta do ano 140 d.C.: “E o presbítero [o apóstolo João] disse isto: Marcos, tendo se tornado intérprete de Pedro, escreveu com precisão tudo de que se lembrou. Não foi, porém, na ordem exata que ele relatou os ditos ou os feitos de Cristo, pois ele nem ouviu nem acompanhou o Senhor. Contudo, posteriormente, como eu disse, ele acompanhou a Pedro, que acomodou suas instruções às necessidades [de seus ouvintes], mas sem a intenção de fornecer uma narrativa regular dos ditos do Senhor. Essa é a razão de Marcos não ter cometido nenhum erro ao escrever algumas coisas de memória. Pois em uma coisa ele teve cuidado especial, que foi em não omitir qualquer coisa que tivesse ouvido, e não inserir qualquer coisa fictícia nas declarações. [Da exposição dos oráculos do Senhor (6)].
Data Entre 60 e 70 d.C.
Verso “Cristo em Marcos é o grande escravo que se deu a Si mesmo para que eu seja salvo.
Versículos chave 1.1; 8.29; 10.45; 15.39
Propósito Produzir nos leitores um compromisso de fé com Jesus Cristo, que é o Servo de Deus e o Sacrifício pela humanidade.
Mensagem O padrão do discipulado cristão encontra-se no Servo de Deus, cujo serviço autentica a Sua mensagem, e cuja vida é um sacrifício por toda a humanidade.
Contribuição para o Cânon (Porque este livro está na Bíblia?)
- Apresenta Jesus como o Poderoso Filho de Deus e ao mesmo tempo um Servo Sofredor.
- Mostra Jesus ativo, mas não ativista – um Homem poderoso, mas humilde; o Filho de Deus mas um Servo.
- “O que Jesus fez prova quem Ele era. O que Ele realizou autentica o que ensinou. As obras poderosas confirmam as palavras surpreendentes.”
Esboço
- O Servo do Senhor no Seu Serviço (1-10)
- O ministério do Servo do Senhor autenticado e rejeitado (1.1-8.26)
- A preparação e aprovação do Servo (1.1-13)
- O ministério do Servo autenticado (1.14-2.12)
- O ministério do Servo rejeitado e limitado [para os discípulos] (2.13-8.26)
- As instruções do Servo aos Seus discípulos (8.27-10.52)
- O programa de Deus para o Servo-Messias (8.27-9.13)
- As expectativas do Servo-Messias acerca dos Seus discípulos [no meio da oposição] (9.14-10.52)
- O ministério do Servo do Senhor autenticado e rejeitado (1.1-8.26)
- O sacrifício do Servo do Senhor (11-15)
- A rejeição oficial do Servo-Messias (11-12)
- A preparação dos discípulos do Servo para a perseguição vindoura (13)
- O sacrifício do Servo do Senhor como resgate (14-15)
- A ressurreição e ascensão do vitorioso Servo do Senhor (16.1-20)
Pontos notáveis
- O nome deste evangelho vem de uma pessoa muito próxima do apóstolo Pedro, bem como uma personagem recorrente no livro de Atos, onde Marcos é citado como “João, cognominado Marcos” (At 12.12,25; 15.37,39). Depois de ter sido liberto da prisão (At 12.12), Pedro foi à casa da mãe de João Marcos em Jerusalém.
- João Marcos era primo de Barnabé (Cl 4.10) e, juntamente com ele, seguiu na primeira viagem missionária de Paulo (At 12.25; 13.5). Contudo, Marcos os abandonou no caminho para Perge, voltando para Jerusalém (At 13.13). Quando Barnabé quis que João Marcos participasse da segunda viagem missionária, Paulo recusou. O atrito resultante entre Paulo e Barnabé fez com que os dois se separassem (At 15.38-40).
- A vacilação anterior de João Marcos evidentemente deu lugar a uma grande força e maturidade e, com o passar do tempo, ele mostrou o seu valor até mesmo ao apóstolo Paulo. Quando escreveu a carta aos Colossenses, Paulo instruiu os irmãos que, se João Marcos fosse até eles, deveria ser bem recebido (Cl 4.10). Paulo até mesmo citou Marcos como um companheiro de trabalho (Fm 24). Mais tarde, Paulo disse a Timóteo: “Toma contigo Marcos e traze-o, pois me é útil para o ministério” (2Tm 4.11).
- A restauração de João Marcos a um ministério de grande utilidade pode ter acontecido, em parte, por causa da mediação de Pedro. O relacionamento próximo de Pedro com Marcos fica evidente a partir da referencia que lhe faz, chamando-o de “meu filho Marcos” (1Pe 5.13). Como se sabe, Pedro também havia fracassado, e a sua influência sobre o jovem foi preponderante para ajuda-lo a sair da instabilidade da sua juventude e entrar na força na maturidade da qual ele precisaria para a obra à qual Deus o havia chamado.
- Escrevendo por volta do ano 150 d.C., Justino Mártir refere-se ao Evangelho de Marcos como “as memórias de Pedro” e sugere que Marcos escreveu esse Evangelho quando esteve na Itália. Isso está de acordo com a voz uniforme da tradição primitiva, que também considerava este evangelho como tendo sido escrito em Roma, para benefício dos cristãos romanos.
- Quando emprega termos aramaicos, Marcos apresenta a respectiva tradução (3.17; 5.41; 7.11,34; 10.46; 14.36; 15.22,34). Por outro lado, em alguns lugares ele usa expressões latinas, em vez de seus equivalentes gregos (5.9; 6.27; 12.15,42; 15.16,39). Marcos também conta o tempo de acordo com o sistema romano (6.48; 13.35) e explica cuidadosamente os costumes judaicos (7.3-4; 14.12; 15.42). Estes são alguns dos factos que apoiam a visão tradicional de que o Evangelho de Marcos foi escrito para um público gentio, inicialmente em Roma.
- Marcos apresenta Jesus como o servo sofredor de Deus (10.45). Seu foco está mais nos feitos de Jesus do que nos Seus ensinos, enfatizando particularmente o serviço e o sacrifício.
- Marcos demonstra a humanidade de Cristo mais claramente do que qualquer outro evangelista, enfatizando Suas emoções (1.41; 3.5; 6.34; 8.12; 9.36), Suas limitações (4.38; 11.12; 13.32) e outros pequenos detalhes a respeito de Jesus que destacam o lado humano do filho de Deus (e.g. 7.33-34; 10.13-16).
- Até mesmo uma leitura superficial de Mateus, Marcos e Lucas revela tanto semelhanças notáveis (cf. 2.3-12; Mt 9.2-8; Lc 5.18-26) quanto diferenças significativas, como a visão da vida, do ministério e do ensino de Jesus em cada livro. A questão de como explicar essas semelhanças e diferenças é conhecida como o “problema sinótico” (sin significa “junto” e ótico significa “ver”). A solução mais simples para o problema sinótico é que esse problema não existe! Uma vez que os críticos não podem provar a dependência literária entre os autores dos Evangelhos, não há necessidade de explicá-la. A visão tradicional de que os autores dos Evangelhos foram inspirados por Deus e escreveram independentemente uns dos outros – exceto pelo facto de todos os três terem sido movidos pelo mesmo Espírito Santo (2Pe 1.21) – permanece como a única visão plausível.
- Marcos é um evangelho de ação concentrada, onde as multidões estão continuamente a cercar Jesus, cujas ações são com frequência precedidas pela palavra grega εὐθύς [euqus], traduzida por “imediatamente” (usada um total de 41 vezes neste evangelho).
- Em Marcos, Jesus sabe “correr com calma”, ministrando para outros de uma fonte inesgotável, sempre atento às necessidades ao seu redor, sempre com tempo para investir na vida de pessoas, nunca com pressa, nunca com espírito frenético. Será que o “segredo” da sua paz interior, no meio da tempestade, foi a oração (cf. 1.35; 6.46; 14.35ss). Jesus também sabia retirar-se da correria ou afastar-se dos seus inimigos (cf. 1.45; 3.7; 6.30-32; 7.24; 8.27; 9.2; 11.11,19).
- A pergunta chave do livro é “quem é este homem?” (cf. 1.27; 2.7; 4.41; 6.2; 11.28; 14.61; 15.2). A resposta vem das mais variadas fontes: o próprio Autor (1.1); Deus Pai (1.11; 9.7); espíritos imundos (1.24; 3.11; 5.7); Pedro (8.29); Bartimeu (10.47); o próprio Jesus (14.61,62; 15.2); o centurião romano (15.39).
- A “dobradiça” do livro acha-se em 8.27-30, na confissão de Pedro – “Tu és o Cristo” (8.29). Antes, Jesus afirmara-se para para provar a Sua identidade e autoridade como Messias, mas foi rejeitado pelo Seu próprio povo (cf. 3.21 – família; 3.22-30 – líderes; 5.17 – gerasenos; 6.3 – Nazaré; 6.14 – morte de João, o precursor). Depois, começou a preparar os Seus discípulos para a Sua morte, através da qual o Servo conseguiu a Sua maior vitória.
- O fim deste Evangelho tem sido um tópico acaloradamente debatido ao longo dos últimos quinze séculos. Acreditamos que os doze últimos versículos de Marcos (16.9-20) pertencem ao lugar em que se acham e foram escritos pelo próprio Marcos, sob a direção do Espírito Santo.
